domingo, 16 de abril de 2017

Chol HaMoed - Os Dias Intermediários




Os seis dias entre a festa de Sucot e Shmini Atzeret (cinco na Diáspora), e os cinco dias entre o primeiro e o último dia de Pessach são chamados de chol hamoed.

Os sábios, baseando-se no número de versos na Torá, criaram a regra de que é proibido trabalhar em chol hamoed. No entanto, esta proibição difere da proibição dos dias de festa, que é explicitamente citada na Torá. A determinação de o que é permitido ou não no chol hamoed coube aos nossos sábios.

Qualquer trabalho referente à preparação de comida, para si ou para outrém, é permitido em chol hamoed.

Qualquer forma de trabalho não fisico, que causaria prejuízo se não feito a tempo, é permitida. Entretanto, trabalho que poderia ter sido feito antes do chag, e foi deliberadamente atrasado para o chol hamoed, é proibido.

Se alguem tinha algum trabalho que precisaria fazer, mas não pode por causa das proibições de chol hamoed, e uma pessoa pobre lhe pede para fazer o trabalho e ganhar dinheiro para celebrar a festa, a pessoa pobre está autorizada a realizar o trabalho. (por exemplo, alguém pode dar suas roupas para serem lavadas por uma pessoa pobre lavar em chol hamoed - mesmo ela própria estando proíbida de fazê-lo - para que a pessoa pobre possa ganhar algum dinheiro.

Com exceção de irrigação essencial, e colheita de frutas para uso durante o chol hamoed, qualquer trabalho no campo é proibido em chol hamoed, a não ser que a não realização deste implique em grande perda.

É proibidio cortar o cabelo ou barbear-se. Entretanto, quem não pôde cortar antes do chag (um enlutado, ou recém saído da prisão), pode cortar o cabelo.

É permitido cortar as unhas somente caso também o tenha feito antes do chag. Alinhar as unhas com os dentes é permitido.

É proibido lavar roupas em chol hamoed, a não ser que as roupas sejam necessárias para o chag e foi impossível lavá-las antes. Fraldas podem ser lavadas.

Qualquer necessidade relativa a cuidados médicos, para seres humanos ou animais, é permitida.

Assuntos de negócios não podem ser registrados em chol hamoed, exceto se há temor de que os detalhes do negócio possam ser esquecidos e que isso resultará em perdas no negócio. Correspondências amigáveis, sem menção a negócios, podem ser escritas. Entretanto, devem ser escritas de maneira que seja diferente do comum.

Se alguém pega dinheiro emprestado - mesmo que o dinheiro não é necessário até depois do chag - pode assinar uma nota promissória. Entretanto, caso saiba que poderá assegurar o empréstimo logo após o chag, não poderá fazer a primissória.

Não é permitido mudar de residência em chol hamoed, a não ser que a nova residência seja no mesmo complexo que a anterior. Se o primeiro apartamento era alugado e a mudança é para uma casa própria, a mudança é permitida, uma vez que mudar-se para uma casa própria é fonte de alegria.

As formas de trabalho permitidas em chol hamoed devem ser realizadas com discrição.

A compra e venda de mercadorias é proibida em chol hamoed, a não ser que uma das seguintes condições se aplique:

- O dinheiro lucrado é necessário para satisfazer necessidades do chag;
- Existe a oportunidade de ter um lucro muito maior do que o normal caso o negócio seja realizado normalmente, permitindo que mais gastos sejam feitos com a celebração do chag;

Perda de lucro potencial não dá base para permitir que transações sejam permitidas.

Casamentos não devem ser realizados em durante chol hamoed, para que uma ocasião festiva não se sobreponha a outra. É permitido, entretanto, assumir compromisso de casamento, e escrever o documento de tena'im (assumindo termos do acordo entre as partes).

Em chol hamoed, jejuns e eulogias aos falecidos são proibidos. Se um parente próximo (por quem se faria a shivá) vem a falecer nesses dias, os sete dias de luto serão observados somente após o fim do chag, embora práticas pessoais de luto já começam a ser observadas no chol hamoed ou Iom Tov.

Deve-se ser excessivamente cuidadoso para não realizar nenhum tipo de trabalho proibido. Os sábios disseram: "Aquele que trata o chol hamoed sem atenção, é considerado como se tivesse adorado ídolos." (Pessachim 118b). Também disseram: "Aquele que trata os chaguim sem atenção (incluindo chol hamoed) - mesmo que possua conhecimento da Torá e boas ações - não tem lugar no Olam HaBá (Mundo Vindouro)" (Avot 3:15) Ainda, o chol hamoed deve ser honrado e santificado, evitando-se o trabalho, usando-se roupas boas, comidas e bebidas boas.

Ao visitar a casa de alguém, deve-se cumprimentar os donos da casa com: "Moadim lesimchá" ou "Um bom moed," para honrar a ocasião. Usar o mesmo cumprimento dos dias comuns seria menosprezar o chol hamoed.

Alguns tem o costume de acender velas em cada anoitecer dos dias de chol hamoed, assim como nos de Iom Tov.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

SEFIRAT HAÔMER - O QUE CONTAMOS? | TUDO SOBRE A CONTAGEM DE SEFIRAT HAÔMER



O Ômer era uma medida de cevada (aproximadamente 2,2 l) que os judeus traziam como Minchá ou oferenda vespertina no segundo dia de Pêssach. Isto era seguido pela contagem do ômer, quando os judeus contavam cada dia durante sete semanas - quarenta e nove dias no total - culminando com o dia festivo de Shavuot no quinqüagésimo dia, que também celebra o recebimento da Torá no Monte Sinai.

SEFIRAT HAÔMER -  Sete Atributos Emocionais

A partir da segunda noite da Festa de Pêssach, inicia-se a contagem do ômer até a festa de Shavuot.

Qual a razão para a Contagem dos Quarenta e Nove dias de Ômer?

Agora mais que nunca, pessoas de todas as esferas da vida estão buscando um sentido e um propósito. Algumas procuram respostas na meditação. Algumas voltam-se para livros de auto-ajuda, terapia, religião, yoga, programas de doze estágios e filosofias modernas.

Muitas pessoas, entretanto, não se dão conta que a mais antiga - portanto testada mais vezes - resposta nos foi dado há 3.300 anos no Monte Sinai. É chamada: a Torá.

A outorga da Torá

Torá significa instrução. A Torá e suas histórias são, em sua essência, a história de nossa vida, um plano espiritual que ilumina as camadas e dimensões de nossa psique e alma. Cada evento na Torá reflete um outro aspecto de nossa personalidade interior. Através de suas mitsvot e mandamentos, a Torá ensina como nos atualizarmos conforme a intenção de D'us ao nos criar. Decifrando o código da Torá, desvendamos sua mensagem pessoal a cada um de nós.

Em cada palavra da Torá há um significado profundo, pessoal e espiritual.

O processo de receber a Torá no Sinai começou, na verdade, quarenta e nove dias antes, com o Êxodo do Egito. Estes quarenta e nove dias são tradicionalmente chamados de "Sefirá Ha'Ômer," que significa contagem do ômer.

Em Vayicrá (o terceiro livro da Torá) 23:15, o versículo diz: "Contareis para vós desde o dia seguinte ao primeiro dia festivo, desde o dia em que tiverdes trazido o "ômer" da movimentacão; sete semanas completas serão."

O ômer era uma medida de cevada (aproximadamente 2,2 l) que os judeus traziam como minchá ou oferenda vespertina no segundo dia de Pêssach. Isto era seguido pela contagem do ômer, quando os judeus contavam cada dia durante sete semanas - quarenta e nove dias no total - culminando com o dia festivo de Shavuot no quinqüagésimo dia, que também celebra o recebimento da Torá no Monte Sinai.

Mesmo após a destruição do Primeiro e Segundo Templos onde era trazida a oferenda do ômer, a tradição da contagem do ômer continuou. Começando com a segunda noite de Pêssach, cada um destes quarenta e nove dias levando de Pêssach a Shavuot é contado em progressão ordenada.

Ao fim da oração noturna em cada uma destas quarenta e nove noites, um judeu recita uma bênção e entãso verbaliza o número daquele dia. Além de comemorarem a contagem do ômer, os quarenta e nove dias de sefirá também expressam a antecipação ansiosa do judeu em receber a Torá em Shavuot, cinqüenta dias após vivenciar a liberação em Pêssach.

Qual é o significado da contagem por quarenta e nove dias e como isso se relaciona com a antecipação e os preparativos para receber a Torá? Que relevância tem esta contagem para nós hoje e como se aplica à exploração das dimensões mais recônditas de nossa alma?

A resposta a estas dúvidas está num entendimento mais profundo do êxodo da nação judaica do Egito. A palavra "mitzrayim" (Egito em hebraico) significa limites e fronteiras, e representa todas as formas de conformidade e definição que restringem, inibem ou tolhem nosso livre movimento e expressão. Dessa maneira, a saída do Egito significa liberdade das amarras. Após deixarem o Egito, os judeus passaram os próximos quarenta e nove dias no deserto, preparando-se espiritualmente para a mais monumental experiência de todos os tempos: a outorga da Torá a Moshê e ao povo judeu no Monte Sinai.

49 dias

Este período de quarenta e nove dias foi de intenso aperfeiçoamento de caráter. Por quarenta e nove dias, os judeus ascenderam, um degrau por vez, uma escada emocional em direção a uma pureza mais elevada. Este período de refinamento de caráter tem tanta relevância em nossa vida hoje como teve há mais de 3.300 anos. Da mesma forma que éramos escravos no Egito, podemos também ser escravos de nossas personalidades, dirigidos por forças sobre as quais frequentemente sentimos não ter controle algum.

Os quarenta e nove dias da sefirá nos ensinam como recobrar o controle de nossas emoções, mostrando-nos como refinar nosso caráter, passo a passo, de uma maneira baseda nas verdades eternas da Torá.

Após este período de quarenta e nove dias, chegamos ao qüinquagésimo dia, matan Torá (a outorga da Torá), tendo conseguido plena renovação interior pelo mérito de ter avaliado e desenvolvido cada um dos quarenta e nove atributos. Qual é o significado do qüinquagésimo dia de matan Torá?

Nesta data celebramos a Festa de Shavuot. Após termos consumado tudo que pudemos pela nossa própria iniciativa, então somos merecedores de receber um presente (matam) do Altíssimo, o qual não poderíamos ter atingido com nossas limitadas faculdades. Recebemos esta habilidade de atingir e tocar o Divino; não apenas para sermos seres humanos aperfeiçoados que refinaram todas suas características pessoais, mas seres humanos divinos, capazes de se expressarem acima e além das definições e limitações de nosso ser.

A contagem da sefirá que se seguiu ao êxodo do Egito é um processo que devemos recriar continuamente em nossa vida, para que possamos atingir verdadeira liberdade pessoal.

Um estágio para o aperfeiçoamento pessoal

A palavra hebraica "sefirá" tem vários significados. O famoso cabalista RaMak (R. Moshê Kordevero, 1570) na sua monumental obra "Os Pardes", escreve que sefirá significa tanto "mispar", significando número e "sipur", como em "contar uma história." Uma terceira raiz de "sefirá" é sapir, uma pedra de safira, um cristal translúcido que irradia brilho.

A contagem da sefirá ilumina os diferentes aspectos de nossa vida emocional. Os dias de sefirá nos contam uma história - a história de nossas almas.

O espectro da experiência humana divide-se em sete emoções e qualidades, conhecidas no plural como sefirot. Cada uma dessas sete qualidades, por sua vez, subdivide-se em sete, perfazendo o total de quarenta e nove.

Cada dia no tempo tem vida própria. Um dia é um fluxo ímpar de energia, esperando para ser conduzida até cada uma das fibras do ser humano.

Os sete atributos emocionais

Cada um dos quarenta e nove dias da sefirá ilumina uma das quarenta e nove emoções; a energia de cada dia consistindo em examinar e aperfeiçoar sua emoção correspondente. Após purificar e aperfeiçoar todas as quarenta e nove dimensões, estamos totalmente preparados para matan Torá, pois agora estamos em sincronia com os quarenta e nove atributos Divinos a partir dos quais os atributos humanos evoluem.

Eis uma descrição dos sete atributos emocionais, que em várias combinações constituem as quarenta e nove qualidades a ser examinadas e desenvolvidas durante este período. Eis apenas uma de muitas aplicações:

Chesed - bondade, benevolência

Guevurá - justiça, disciplina, moderação, reverência

Tiferet - beleza e harmonia; compaixão

Netzach - resistência; firmeza; ambição

Hod - humildade, esplendor

Yesod - vínculo, princípio

Malchut - nobreza, soberania, liderança.

O período de quarenta e nove dias da sefirá é contado em dias e semanas. Os sete dias de cada semana constituem os quarenta e nove dias. Cada semana é representada por um aspecto daquele atributo.

Como uma emoção plenamente funcional é pluri-dimensional, inclui dentro de si uma mistura de todos os sete atributos.

Por exemplo: A primeira semana da sefirá é dedicada a CHESED - o atributo da bondade. No primeiro dia da primeira semana lidamos com chesed she'b'chesed - o aspecto da bondade em si mesma.

No segundo dia da Primeira Semana nos concentramos em Guevurá she'b'chesed - o aspecto da restrição em bondade. No terceiro dia da Primeira Semana, o foco está em tiferet she'b'chesed - a harmonia da bondade, e assim ocorre com todos os sete dias da semana.

Esta análise diária lhe dará a habilidade de recuar e olhar objetivamente às suas emoções subjetivas. Observar seus pontos fortes e fracos, por sua vez, lhe possibilitará aplicar-se a desenvolver e aperfeiçoar aqueles sentimentos, enquanto você caminha em direção à maturidade emocional e espiritual.

Como conta-se o ômer

A partir da segunda noite de Pêssach até Shavuot faz-se, em pé, a contagem do ômer, a cada noite após a prece de Arvit. Se a pessoa esquecer de fazê-la à noite, poderá fazer no dia seguinte, mas sem recitar a bênção, continuando a contagem normalmente (i.e., com a bênção) nas noites subseqüentes. Caso tenha esquecido de contar também

naquele dia, deverá continuar a contagem nas noites seguintes,

mas sem recitar a bênção.

Antes de iniciar a contagem do ômer, deve-se ter em mente o número da contagem e a sefirá correspondente.

Recita-se:

Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech haolam, asher kideshánu bemitsvotav, vetsivánu al sefirat haômer.

Bendito és Tu, A-do-nai, nosso D'us, Rei do Universo, que nos santificou com Seus mandamentos, e nos ordenou sobre a contagem do ômer.

Exemplo: Número da contagem na primeira noite:

Hayom yom echad laômer.

Hoje é um dia para o ômer.



Ha'Rachaman hu yachazir lánu avodat Bet ha'Micdash limcomáh, bimherá veyamênu, amen, sêla.

Queira o Misericordioso restaurar o Serviço do Bet Hamicdash a seu lugar, brevemente em nossos dias, amém, e que assim seja para todo o sempre.

Lamnatsêach binguinot mizmor shir. E-lo-him yechonênu vivarechênu, yaer panav itánu, sêla. Ladáat baárets darkêcha, bechol goyim yeshu-atêcha. Yodúcha amim, E-lo-him, yodúcha amim culam. Yismechu viranenu leumim, ki tishpot amim mishor, ul'umim baárets tanchêm sêla. Yodúcha amim E-lo-him, yodúcha amim culam. Êrets nate-ná yevulá, yevarechênu E-lo-him, E-lo-hê-nu. Yeva-rechênu

E-lo-him; veyireú Otô col afsê árets.
Para o Mestre do Coro - um salmo com música instrumental; um cântico. Possa D'us ser pleno de graça conosco e abençoar-nos, possa Ele fazer brilhar Sua face sobre nós para todo o sempre. Para que Teu caminho seja conhecido na Terra, Tua salvação entre todas as nações. As nações Te exaltarão, ó D'us; todas as nações Te exaltarão. As nações rejubilar-se-ão e cantarão de alegria, pois Tu julgarás os povos com justiça e guiarás as nações na Terra para sempre. Os povos Te exaltarão, ó D'us, todos os povos Te exaltarão. Pois a terra terá dado seu produto e D'us, nosso D'us, nos abençoará. D'us nos abençoará; e todos, dos mais distantes recantos da Terra, O temerão.

Sefirat Haômer




Contagem do Ômer ou Sefirat Ômer (em hebraico ספירת העומר ) é o nome dado a contagem dos 49 dias ou sete semanas entre Pessach e Shavuót.
Posteriormente , o período da Contagem do Ômer passou a ser considerado um período de luto em memória à peste que matou centenas de discípulos do Rabino Akiva. Costumeiramente os homens não se barbeiam nem são efetuados casamentos neste período. O único dia em que se abandona o luto é em Lag Baômer.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Eliminação do Châmetz






Um dos mandamentos centrais da festa de Pessach se refere ao Chametz. Começando na manhã da véspera de Pessach e se estendendo até o término desta festividade de oito dias (sete em Israel), é proibido ingerir, possuir ou mesmo se beneficiar de qualquer quantidade de Chametz.

Edição 87 - Março de 2015

Apesar da palavra ser comumente traduzida por “fermento” ou “levedura”, o termo Chametz possui uma definição bem mais precisa. Significa trigo, aveia, cevada, trigo espelta e centeio que permaneceram úmidos por 18 minutos ou mais – tempo suficiente para que se inicie o processo de fermentação.

O processo de eliminação do Chametz consiste de duas partes. Primeiro: alguns dias antes do início da festa, vendemos nosso Chametz a um não judeu. Uma pessoa que possui uma quantidade substancial de Chametz – e está relutante em desfazer-se do mesmo devido à perda financeira – pode vendê-lo a um não judeu e recomprá-lo de volta quando a festa terminar.

A maneira mais simples de realizar essa venda é preenchendo um contrato de venda que é enviado a um rabino, que age como agente e intermedia tanto a venda a um não judeu na manhã antes do início de Pessach, e a recompra, ao entardecer do término da festividade. O Contrato de Venda de Chametz permite a guarda, na casa da pessoa, de Chametz do qual o proprietário não queira se desfazer, pois esses alimentos deixam de pertencer a ele, passando a ser propriedade do não judeu que os adquiriu. Esse contrato não é, como muitos pensam, apenas um estratagema ridículo para burlar as leis da Torá – porque aquele que adquire o Chametz pode, se assim o quiser, ficar de posse daquilo pelo que comprou. Isso raramente ocorre; mas quem vende seu Chametz tem que estar ciente de que não se trata de uma venda de “faz-de-conta”.

A segunda parte do processo consta da busca e extermínio de todo o Chametz que não foi guardado para ser vendido, por meio do Contrato de Venda, na manhã antes do início de Pessach. O processo da procura é realizado na noite antes do Seder. Imediatamente após o cair da noite, o chefe da família conduz essa busca do Chametz sem grande valor financeiro e que ele pode consumir ou descartar tranquilamente antes do início da festa. Pode-se comer o que encontra ou queimá-lo na manhã seguinte.

Deve-se procurar em todos os cantos da casa onde é possível que haja Chametz.  Um costume universalmente aceito é o preparo de dez pedacinhos de pão embrulhados individualmente, que são escondidos em diferentes lugares da casa, antes de começar a procura. É importante que esses pedaços sejam firmes, não quebradiços, para não deixar migalhas. Aí começa a procura pela casa com uma vela de cera acesa, de um único pavio. Não se deve usar uma vela de Havdalá.

Antes de se iniciar a busca, recita-se a seguinte Berachá: Abençoado és Tu, Eterno nosso D’us, Rei do Universo, que nos santificaste com Teus mandamentos e nos ordenaste remover o Chametz.

Como a pessoa que realiza a busca deverá encontrar os dez pedaços de pão “escondidos”, não há possibilidade de que tenha recitado essa bênção em vão. Chama a atenção o fato de essa Berachá – que inclui tanto a busca do Chametz, à noite, quanto sua eliminação, na manhã seguinte – mencionar “a remoção do Chametz”, e não “a busca do Chametz”. A razão para isso é que a busca é meramente um preparativo para o mandamento essencial – a remoção – ou seja, a eliminação do Chametz, que ocorre na manhã seguinte.
Enquanto conduz a busca, o chefe da família não deve pausar ou discutir qualquer outro assunto que não seja relevante ao que está fazendo. Ele deve colocar cuidadosamente em um recipiente ou uma sacola o Chametz que vai encontrando, inclusive os dez pedacinhos embrulhados. Após a busca, ele coloca tudo o que encontrou em um local previamente escolhido, e diz as seguintes palavras:

“Todo Chametz que está em minha posse, que eu não vi, e que não exterminei, que seja anulado como o pó da terra”.

Na manhã seguinte, véspera de Pessach (14o dia de Nissan), até a hora que for anunciada como o limite para a eliminação do Chametz, queima-se tudo o que foi encontrado durante a busca. Isso inclui os dez pedacinhos de pão. 
A eliminação geralmente é feita pelo fogo, mas quando isso for impossível, pode-se fazê-lo por outros meios, como por uma descarga no banheiro.

Após jogar no fogo o Chametz, o chefe da casa repete o que havia pronunciado na noite anterior, após realizar a busca: “Todo Chametz que está em minha posse, que eu vi ou não vi, e que eu exterminei ou não exterminei, que seja anulado como o pó da terra”.



Chametz e as forças do mal

A prática de espalhar pela casa dez pedacinhos de pão é bastante antiga. E serve a um propósito prático: se não fosse pelos dez pedacinhos, o chefe da família talvez não encontrasse nenhum vestígio de Chametz em sua casa e sua bênção acerca de sua eliminação teria sido em vão. Mas há, também, uma razão cabalística para os dez pedaços de pão. Apesar de também fazerem lembrar as Dez Pragas, eles representam a ideia de que, no reino da impureza, há dez forças que correspondem às Dez Sefirot do reino da santidade. Trata-se das “dez coroas da impureza”, simbolizadas pelos dez pedacinhos de pão que buscamos para depois queimar.

No Talmud e na Cabalá, o Chametz geralmente é usado como símbolo para o mal. O Rabi Moshe Chaim Luzzatto, o Ramchal, ensinava que o Chametz é um símbolo do Yetzer Ha-Rá – o instinto do mal que existe dentro de todos os seres humanos, exceto daqueles que são completamente justos e virtuosos. O Zohar, obra fundamental da Cabalá, equipara o Chametz com idolatria, com as seguintes palavras: “Aquele que come Chametz em Pessach se equipara a quem cultua um ídolo” (Zohar 2: 182). Alguns comentaristas explicam que o Chametz representa o Yetzer Ha-Rá porque, ao contrário da Matzá, ele cresce e incha, remetendo-nos, portanto, ao orgulho, que é a suprema fonte das forças do mal. O fato de que o Chametz faça outro tipo de massa crescer é análogo à maneira pela qual o mal age sobre as funções da alma da pessoa, arruinando-a, e arruinando a alma das pessoas que estejam ao seu redor.

Como o Chametz é um símbolo de arrogância, podemos entender a razão para o Zohar o equiparar à idolatria. Pois, o que é a idolatria? Para o judaísmo, não significa apenas acreditar em mais de um D’us. Significa, também, atribuir poder a qualquer coisa no mundo que não seja a D’us. A arrogância é uma forma de autoidolatria, pois é a crença de que a pessoa é melhor do que os demais, que sabe mais do que todos, e que não deve nada a ninguém. Na verdade, o Talmud ensina que se há algo que afaste a Presença Divina, esse algo é a arrogância, pois o arrogante pretende usurpar o legítimo lugar de seu Criador. Somente pode haver um único D’us no mundo. D’us aguenta um pecador, mas não alguém que se julgue um deus.

Ninguém personificou a arrogância mais do que o Faraó, o vilão na história de Pessach. O rei egípcio, que era idólatra e genocida e desafiava a D’us, proclamava ser uma divindade que havia criado sua própria pessoa. O oposto do Faraó, o herói de Pessach, foi Moshé Rabenu, que, nas palavras da Torá, foi o “homem mais humilde que jamais se viu”. A santidade e a sacralidade estão associadas à humildade, enquanto que a profanidade e a blasfêmia se associam à arrogância.

Matzá, o pão da pobreza, que não cresce e não fermenta, simboliza a humildade. O Chametz, que fermenta, representa justamente o oposto. A festa de Pessach é uma época para agradecermos, pois se D’us não nos tivesse salvado, nossos antepassados e todas as gerações judaicas subsequentes, incluindo a nossa, ainda seríamos escravos ou teríamos sido exterminados pelo Faraó. O reconhecimento e a gratidão advêm da humildade. Além disso, Pessach é a “Festa da Liberdade” e quem é presa de seu próprio ego – que vive para satisfazer seus desejos e seu orgulho – jamais poderá ser realmente livre. Os temas dessa festa, simbolizados pela Matzá, são a antítese do que representa o Chametz.



Chametz e o Instinto do Mal

O judaísmo despreza a arrogância e dá muito valor à humildade. Ensina o Talmud que o mundo se preserva pelo mérito das pessoas humildes. Portanto, cabe perguntar: se o Chametz é um símbolo de arrogância, maldade e idolatria, por que não é proibido o seu consumo o ano inteiro?

Uma das respostas a essa pergunta pode surpreender a muitos. A Torá não proíbe o Chametz o ano todo porque o que simboliza – o Instinto do Mal, o Yetzer Ha-Rá, não é, necessariamente, uma coisa ruim. É o que dá ao homem o livre arbítrio. Se o homem tivesse apenas o Instinto do Bem e não se sentisse tentado a pecar, ele não seria merecedor do poder de escolha entre o certo e o errado. Se não houvesse escuridão no mundo, não apreciaríamos a luz. O Instinto do Mal é necessário para que a vida do homem tenha significado, pois não podemos viver sem desafios. A resistência e o esforço resultam em crescimento e progresso. Isso é válido para todas as esferas – a física, a intelectual ou a espiritual. Nesta última, somente se adquire mérito através do esforço. A vida, segundo os cabalistas, é um campo de batalha, onde lutam os instintos positivos e os negativos do homem. Não fosse pelo Yetzer Ha-Rá, não haveria luta espiritual e, portanto, nenhuma possibilidade de vitória.

Há outra razão para que o Instinto do Mal – e tudo o que representa – não seja de todo ruim. É o fato de ser o motor que aciona as pessoas. Ao nos levantarmos pela manhã, vamos ao trabalho em busca de prazer, honra e felicidade. Somente um verdadeiro Tzadik, um homem como Moshé Rabenu, vive todos os momentos de sua vida para servir a D’us e cumprir Sua Vontade. A maior parte de nós vive para si próprio ou para aqueles a quem amamos.

O Midrash (Gênesis Rabá) cita um versículo da primeira porção da Torá, que diz o seguinte: “E D’us viu tudo o que fizera, e o achou muito bom: ‘bom’ se refere ao Instinto do Bem, mas ‘muito bom’ se refere ao Instinto do Mal. Por quê? Porque se não fosse pelo Yetzer Ha-Rá, ninguém construiria uma casa, casar-se-ia, teria filhos ou trabalharia”.

Essa passagem do Midrash nos ensina que o Yetzer Ha-Rá é uma criação Divina e serve a um propósito muito bom. Como vimos, é o que faz o homem avançar na vida. É o que leva o homem a trabalhar com afinco, escolher uma esposa e constituir uma família. Senão, faria apenas o mínimo indispensável para sobreviver. O Instinto do Mal e suas manifestações – desejo, egoísmo, arrogância e egocentrismo – podem ser ruins e desprezíveis, mas a isso se deve o progresso do mundo. 
Comemos Chametz durante o ano porque temos que aprender a lidar com o Instinto do Mal e usá-lo em nosso benefício. Contudo, o Yetzer Ha-Rá nem sempre é bem vindo. O judeu não pode ter em sua posse quantidade alguma do Chametz durante Pessach. Tampouco se podia oferecer Chametz no Altar do Tabernáculo nem do Templo Sagrado de Jerusalém. Pois está escrito: “Não degolarás sangue de Meu sacrifício que tiver fermentado (com Chametz”) (Êxodo 34:25) e “Nenhuma oblação que oferecerdes ao Eterno será preparada com fermento (com Chametz”) (Levítico 2:11). No Altar de D’us, não há lugar para Chametz – símbolo do Yetzer Ha-Rá. Durante Pessach, quando recordamos os inúmeros milagres que D’us realizou em nosso benefício – como nos salvou da escravidão e aniquilação e nos escolheu para ser Seu povo amado – não há espaço para arrogância ou orgulho. Durante o restante do ano, no entanto, bem como em outros lugares que não o Altar, o Chametz foi permitido, porque até a Era Messiânica, o homem precisará combater e dominar seu Instinto do Mal, usando-o para realizar coisas grandiosas.
  
O Baal HaTanya ensinava o seguinte: “Nossos Sábios disseram sobre a arrogância, ‘Amaldiçoado é aquele que a possui, e amaldiçoado é aquele que não a possui’. A arrogância torna o ser humano em um ídolo. Mas sem ela, como podemos mudar o mundo?”. Ele nos ensinou como solucionar esse enigma: Deixe sua consciência saber que arrogância de nada vale e o poder que D’us colocou em seu coração poderá, então, ser facilmente encontrado.

Em outras palavras, o homem primeiro precisa aprender a ser humilde e modesto como uma Matzá. Quando ele perceber que nada é diante de D’us, ele poderá usar o Chametz que tem dentro de si para fazer grandes mudanças no mundo. Como ensinava o Rebe de Lubavitch, “O homem é a agulha de D’us para costurar os muitos retalhos da Criação em um único traje para Sua Glória. Em uma ponta, a agulha tem que ser resistente e afiada, para passar pela prova. Mas na outra ponta, deve ter um orifício, um vazio para prender o fio. Com o mundo, seja resistente e afiado. Dentro do vazio, sinta quão pequeno você é perante o Infinito”.

Durante a Festa das Matzot, eliminamos o Chametz de nossa vida, literal e metaforicamente, e retornamos à nossa Origem Inicial, e assim nos lembramos que nada somos comparados ao Infinito. Ao término de Pessach, retornamos ao mundo, enfrentando-o com firmeza e determinação para executar o propósito para o qual D’us nos enviou a este mundo.

Liberdade e Fé


A festa de Pessach comemora a transição do Povo Judeu da escravidão para a liberdade. Ano após ano, contamos no Seder de Pessach a história relatada pela Hagadá: Os egípcios escravizaram nossos antepassados, D’us interveio golpeando o Egito com as Dez Pragas e isso forçou o Faraó a libertar todos os judeus. Isso resume a história do nascimento do Povo Judeu, de forma bem sucinta.
Uma pergunta óbvia levantada pela história de Pessach é por que foi necessário que D’us punisse o Egito com dez pragas se certamente bastaria um único golpe vigoroso. Se as pragas serviram de castigo pela escravidão, a crueldade e o genocídio perpetrado pelos egípcios, por que razão D’us não acabou com o Egito com uma única praga, duradoura e mortal?
Uma interpretação mais fiel do relato da Torá sobre a história de Pessach revela que as Dez Pragas serviram a uma função mais básica: desacreditar os deuses egípcios de modo que “vocês saibam que Eu sou D’us”. Em outras palavras, o verdadeiro propósito das Dez Pragas não foi punir o Egito e libertar os judeus – já que uma única praga poderia dar conta disso –, mas ensinar uma lição fundamental aos Filhos de Israel, que estavam em vias de se tornar uma nação.
Sabemos que os egípcios adoravam a Natureza, e praticamente não há dúvidas de que os judeus também sofriam a influência dessas crenças. Uma das divindades mais reverenciadas no Egito era o Rio Nilo, pois era a fonte de subsistência do país. Os egípcios eram um povo culto e sofisticado e alguns deles eram poderosos feiticeiros – mas eram todos pagãos, não transcendentalistas. E, como pagãos, acreditavam que as coisas eram como deviam ser: no mundo apenas havia causa e efeito, sem lugar para anomalias. Reverenciavam a Natureza. Seus feiticeiros podiam manipulá-la, de alguma forma: a própria Torá relata que eles conseguiam fazer as águas virarem sangue. Mas eram politeístas que atribuíam poderes divinos aos fenômenos naturais, aos animais e aos seres humanos. O Faraó recusava-se a aceitar o monoteísmo e o conceito de um D’us que transcende o mundo físico.
Em contraste aos pagãos, os transcendentalistas apenas cultuam D’us. O judaísmo ensina que somente há um D’us Único, e que não há nada, absolutamente, além d’Ele. D’us é a única Realidade; a existência de cada um de nós e de cada coisa que existe é completamente dependente d’Ele. Assim sendo, de acordo com o judaísmo, as leis da Natureza são simples ferramentas nas mãos de D’us. Ele criou a Natureza e suas leis de modo a que seu funcionamento seja ordenado. Em uma analogia simplista: D’us emprega as leis da Natureza como um escritor se utiliza das leis da gramática. Elas são necessárias para manter a ordem, mas às vezes podem ser quebradas, particularmente quando o autor deseja chamar a atenção do leitor. D’us age de maneira semelhante: Ele geralmente governa o Seu mundo segundo as leis da Natureza, mas quando deseja acordar os seres humanos, propositalmente as quebra. Isso é o que o judaísmo define como milagre. O judaísmo ensina que o propósito dos milagres é nos fazer lembrar que há Alguém além do mundo físico e de seus fenômenos naturais.
A Cabalá nos ensina que D’us tem diferentes Nomes. Cada um deles representa uma diferente manifestação Divina no mundo. Dois de Seus Nomes aparecem com frequência na Torá. Um deles é Elo-him. O outro é o Tetragrama. Nossos Sábios comentam que o Nome Elo-him tem o mesmo valor numérico que a palavra hebraica HaTeva – a Natureza. Quando D’us Se manifesta por meio das leis da Natureza – pôr do Sol, nascer do Sol, por exemplo – Ele Se manifesta como Elo-him. Quando Ele viola as leis da Natureza – quando ocorre um milagre – Ele está agindo como o Tetragrama. Os egípcios eram pagãos, mas não eram descrentes: acreditavam em inúmeras divindades e também em Elo-him – um D’us iminente, mas não transcendente. Eles não acreditavam em um D’us transcendental, infinitamente além da Natureza.
Considerando o acima exposto, podemos entender a necessidade das Dez Pragas. Se D’us tivesse pretendido arrebentar o Egito, Ele, o Onipotente, teria aniquilado instantaneamente todos os egípcios. Se fosse sua intenção puni-los, Ele poderia tê-lo feito com uma única praga terrível e duradoura. A razão para as Dez Pragas foi que, enquanto escravos, os judeus tinham sido muito influenciados pelo Egito e seu povo; e, portanto, precisavam aprender que a Natureza é um mero pincel nas mãos do Artista Supremo. D’us virou as leis da Natureza de cabeça para baixo para mostrar aos judeus – e para ensinar à humanidade – que Ele não está limitado pelas próprias leis por Ele criadas. O judaísmo admite que D’us geralmente age segundo as leis da Natureza. De outra forma, o mundo seria caótico. Imaginem se a lei da gravidade parasse de existir ou fosse aplicada apenas de forma intermitente. Imaginem um mundo onde a órbita do sol fosse randômica e irregular. Mas o judaísmo também ensina que as leis da Natureza não são absolutas e imutáveis, pois são meras ferramentas Divinas, sempre sujeitas à vontade de D’us.
Não é coincidência o fato de as Dez Pragas terem visado àquilo que os egípcios endeusavam. O Nilo – divindade preferencial – vira sangue. O solo se reveste de animais peçonhentos. Dos céus cai um dilúvio de granizo que contém fogo. A luz do dia se transforma em total escuridão. À medida que as pragas se abatem sobre o Egito, seu povo percebe que a Natureza é subitamente transformada de uma divindade confiável em vilã caprichosa, imprevisível e perigosa. De repente, a Natureza, que eles adoravam, se virava contra eles, e, mais estranho ainda, não contra os judeus.
Compreender que a Natureza nada mais é do que uma ferramenta Divina foi de crucial importância para o Povo Judeu. Tirar os judeus do Egito não significaria a verdadeira liberdade se eles tivessem levado o Egito com eles. Eles teriam sido escravos em fuga, doutrinados por seus senhores e por uma cultura pagã. Remover os judeus do Egito não teria sido a verdadeira liberdade. Foi necessário também remover o Egito que havia dentro dos judeus. E para fazê-lo, os judeus tiveram que testemunhar a destruição dos deuses egípcios: tiveram que ver que o paganismo egípcio era um blefe e que a verdadeira Divindade no mundo não está limitada nem pela Natureza nem por nada mais.
Somente quando o paganismo do Egito foi realmente arrancado de seu coração, os Filhos de Israel puderam seguir para o Monte Sinai e ouvir a Voz de D’us e receber a Torá. E somente então eles entenderam – e puderam ensinar ao mundo – que a Natureza não deve ser cultuada, e que aquele que o faz está trocando os meios pelos fins. Os judeus tiveram que entender que o mundo e tudo que ele contém – mesmo as mais confiáveis leis da Natureza – são apenas a tela, a tinta e o pincel nas mãos de um Artista Infinito, Onipotente e Onipresente.
Uma das lições fundamentais das Dez Pragas é a que diz que quem adora as leis da Natureza – e não importa, realmente, se for um egípcio pagão ou cientista ateu – não é uma pessoa realmente livre, pois não deixa espaço para o inesperado – para uma intervenção Divina que viole as leis da Natureza.
Como mencionamos acima, e isso deve ser repetido tantas vezes quantas necessário for: o judaísmo não rejeita as leis da Natureza nem recomenda uma solução celestial para cada problema. Rejeita, sim, qualquer forma de panteísmo, inclusive a crença de que D’us é a Natureza e a Natureza é D’us.
O judaísmo ensina que é D’us e não a Natureza quem dita de que maneira o mundo funciona. A Torá ensina que D’us é tanto iminente quanto transcendental: Ele é encontrando na Natureza, que Ele criou e constantemente mantém, mas Ele também Se encontra infinitamente além da mesma.
A festa de Pessach celebra a passagem da escravidão para a liberdade. A formidável história que lemos durante o Seder nos ensina que o primeiro passo para a liberdade é uma visão e um entendimento mais precisos do funcionamento do mundo. Todos os que rejeitam o transcendental – que apenas creem no material e não no espiritual, e que não podem ou não querem reconhecer a falibilidade das leis da Natureza – ainda não alcançaram a verdadeira liberdade interna. Independentemente de que religião organizada a pessoa siga, essa pessoa apenas se torna verdadeiramente livre quando ela descobre que sua vida – e o mundo, em geral – não é ditada pelas inflexíveis e imperdoáveis leis da Natureza, mas por um D’us Infinito e transcendental, que, em Sua Infinita Sabedoria, dobra e flexiona as leis da Natureza segundo a Sua Vontade.
A divisão do Mar
Lemos na Hagadá de Pessach que, apesar das Dez Pragas enviadas sobre o Egito, nosso povo não ficou livre ao sair desse país. Conta-nos a Torá, no Livro Êxodo, que após a décima e última praga, o Faraó permitiu que os judeus deixassem aquele país, mas ele mudou de ideia e ordenou a seu exército que fosse atrás deles e os trouxesse de volta.
Os judeus adquiriram a liberdade física do Egito uma semana após o Êxodo, no episódio do Mar de Juncos, quando as águas dividiram-se, por milagre – permitindo que os judeus cruzassem o mar em terra seca, para depois retornar a seu estado anterior, afogando os egípcios.
São claras as diferenças entre as Dez Pragas que se abateram sobre o Egito e a divisão do Mar. Quando os Filhos de Israel estavam no Egito, Moshé e seu irmão Aaron, emissários de D’us, confrontaram o Faraó e seus feiticeiros e soltaram as pragas contra os egípcios, enquanto o restante dos judeus olhava passivamente o desenrolar dos milagres. No entanto, no episódio da divisão do Mar, todos os judeus foram colocados diante de um grande teste de fé. Eles tinham fugido do Egito, mas o exército desse país os tinha alcançado. Eles tinham sido pegos numa emboscada: diante deles estava o Mar de Juncos, profundo e intransponível, e atrás dele estavam poderosas forças armadas, prontas para capturá-los e matá-los.
A Torá nos conta que Moshé, diante de uma situação aparentemente impossível, clamou a D’us por ajuda. Mas em vez de responder com um milagre, como fizera no Egito, D’us o censura: “Por que clamas a Mim? Diz aos Filhos de Israel que sigam adiante!”.
Mas como poderiam avançar quando havia aquele mar colossal diante deles? Note-se que Moshé não faz essa pergunta e D’us tampouco lhe dá instruções. D’us apenas lhe diz para seguirem adiante, e assim eles o fizeram. Aqui segue o próximo passo para a verdadeira liberdade: esta é adquirida não apenas abraçando-se o transcendental, mas também quando se consegue seguir em frente, apesar dos contratempos aparentemente impossíveis de serem vencidos. 
A liberdade é a crença de que se D’us dá uma ordem, Ele dará ao homem os meios para cumpri-la.
Quando D’us diz a Moshé para ordenar que os judeus sigam em frente, o profeta levanta seu cajado – o mesmo que ele usara no Egito para desencadear as pragas – mas nada acontece: o mar continuou como estava, assim como o exército egípcio. Não se viu salvação nem milagre algum. Finalmente, um homem de nome Nachshon ben Aminadav, líder da Tribo de Judá, se atira no mar. Foi avançando com dificuldade pela maré alta até que as águas chegaram à sua cintura, depois ao seu peito e aos seus ombros.
Finalmente, quando as águas chegaram às suas narinas, o Mar de Juncos se dividiu e os Filhos de Israel o seguiram.
Midrash cita várias razões pelas quais o Povo Judeu mereceu que o Mar se dividisse. Segundo alguns de nossos Sábios, isso ocorreu pelo mérito da profunda fé e confiança inabalável de nossos antepassados em que D’us os protegeria. Em outras palavras, o Mar se dividiu porque os judeus tinham fé.
Qual a conexão entre fé em D’us e a divisão do Mar? O que foi discutido sobre a Natureza esclarece esse assunto. A Natureza – como os egípcios descobriram depois de muito sofrimento – está sujeita a mudanças radicais. É muito mais imprevisível do que pensa a maioria das pessoas. De fato, todas as coisas criadas, que vivem dentro dos limites do tempo, estão sujeitas à mudança. Até mesmo as rochas estão sujeitas ao desgaste. O homem, também, está sujeito a constantes mudanças. Como ensinou o Maharal de Praga, a única constante em nosso mundo em constante transformação é D’us.
O homem, no entanto, tem a oportunidade de copiar D’us. Nossa fé e confiança n’Ele, quando são reais e não meras palavras vazias, manifestam uma medida de Seu caráter imutável. Em outras palavras, quando verdadeiramente temos fé em D’us, de certa forma personificamos o Divino.
Quando o Povo Judeu se aproximou das águas com fé em D’us, as águas perceberam neles uma medida do Divino. Como um ser criado – no caso, o Mar de Juncos – não pode opor-se ao Criador, esse ser instintiva e espontaneamente recua perante o povo que personifica o Divino.
Ao compor o Salmo 114, o Rei David referia-se a isso. Vejamos: “Viu-os o Mar e fugiu...”. O Midrash pergunta: O que viu o Mar e de quem fugiu? E responde: Viu divindade refletida no braço estendido de Moshé, e fugiu de sua posição como um obstáculo no caminho de D’us.
Mas isso levanta uma pergunta óbvia: Por que o Mar esperou que Nachshon ben Aminadav se atirasse n’água, até que esta chegasse às suas narinas, para retroceder? A resposta é que o Mar estava esperando que o Povo Judeu expressasse sua fé por meio da ação. Acreditar em D’us – mesmo com fé e confiança genuínas – não era suficiente. O Mar exigia uma demonstração externa de sua fé. Era necessário que alguém a pusesse em prática.
A fé é uma qualidade da alma. Nós, judeus, somos chamados de “pessoas de fé, filhos de pessoas de fé”. A fé em D’us sempre existe dentro de nós, mesmo dentro daqueles que a neguem e tentem lutar contra ela. Mesmo quando alguém tenta negar sua fé, sua alma continua a crer. Mas D’us não se satisfaz com a fé interior oculta. A fé tem que ser exercida. Tem que levar à ação. Não basta crer: é preciso agir de acordo com suas crenças, especialmente quando estas estão dentro da essência da pessoa. D’us nos desafia a atiçar as chamas de nossa fé silenciosa para que ela possa desenvolver-se.
A fé que permanece oculta no coração de alguém é silenciosa. Não tem como impactar o mundo físico a não ser que seja expressa na prática. Foi por esta razão que as águas do Mar de Juncos aguardaram – aguardaram até que os judeus dessem expressão física à sua fé. Nachshon ben Aminadav, líder da tribo de Judá, ancestral do Rei David e do Mashiach, personificou a liderança: adentrou nas águas do Mar sem esperar por um milagre, expressando, assim, a fé que o povo tinha dentro de seu coração. Ao assim fazer, mesmo arriscando a vida, as águas se dividiram.
A fé está muito entrelaçada com a verdadeira liberdade. Chegam mesmo a ser sinônimos na medida em que dá ao homem a força e a determinação de agir apesar dos obstáculos – reais ou imaginários. Todo ser humano é capaz de atingir o nível de devoção expressa por Nachshon ben Aminadav, pois quando o homem decide realizar a Vontade de D’us – fazer o que é certo neste mundo – D’us lhe fornece a maneira de vencer os obstáculos.
Pessach – festa da liberdade – nos ensina que se um judeu está seriamente comprometido a andar pelos caminhos de D’us, da Torá, da justiça e da honradez, o Altíssimo lhe dará a força e a possibilidade de assim o fazer. Como no Mar de Juncos, os obstáculos recuarão, cedo ou tarde, permitindo-lhe uma passagem livre e desimpedida.

Pessach


O Seder de Pessach celebra o nascimento de nosso povo enquanto nação. No Egito, éramos uma família – filhos de Avraham, Itzhak e Yaakov. Quando nos postamos no Monte Sinai, 50 dias após o Êxodo, tornamo-nos uma nação singular – um povo escolhido por D’us. 

Judeus não podem comer ou possuir chametz durante Pessach.

O Seder de Pessach nos faz lembrar quem somos – de onde viemos e para onde planejamos seguir como nação – e transmite nossa identidade e herança às futuras gerações. O Seder de Pessach é uma repetição, a cada geração, dos atos de nossos pais. Por meio do Seder, conectamo-nos com nossos antepassados, remontando-nos aos dias de Moshé Rabenu.

Cada detalhe do Seder de Pessach é repleto de lembranças e significado. Cada item da mesa do Seder tem sua razão de ser. O Seder é uma das cerimônias mais antigas que o Povo Judeu vem observando ininterruptamente através de gerações, mesmo em seus momentos mais atribulados. Diferentes comunidades têm diferentes costumes, mas os elementos centrais são os mesmos. São inúmeras as versões da Hagadá, mas o formato de todas é basicamente o mesmo.

O nome Hagadá advém da palavra hebraica “Vehigadtá” (“E contarás”), que aparece no capítulo 13 do segundo livro da Torá, o Livro de Shemot (Números): “E contarás ao teu filho naquele dia, dizendo, ‘Faço isso pelo que o Eterno fez comigo quando saí do Egito”. Hagadá significa um relato, uma narração.

O principal tema de Pessach é a escravidão e a liberdade: a servidão e o sofrimento, as Dez Pragas, o Êxodo, a divisão do mar. Acredita-se que Pessach seja uma época de celebração da liberdade, pois que um dos nomes da festa é Zman Cherutenu – “época de nossa liberdade”. Mas isso não é totalmente exato. Pessach celebra a transição do cativeiro para a libertação, pois a verdadeira liberdade somente foi adquirida pelo Povo Judeu 50 dias após o Êxodo, quando eles se postaram no Monte Sinai e finalmente se depararam com seu Criador e Libertador.


fonte: morashá

Pessach





Pessach (do hebraico פסח, que significa passar por cima ou passar por alto é a "Páscoa judaica", também conhecida como "Festa da Libertação", e celebra a libertação dos hebreus da escravidão no Egito em 14 de Nissan

De acordo com a tradição, a primeira celebração de Pessach ocorreu há 3.500 anos, quando de acordo com a Torá, Deus enviou as Dez pragas do Egito sobre o povo egípcio. Antes da décima praga, o profeta Moisés foi instruído a pedir para que cada família hebreia sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais (mezuzót) das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogênitos.
Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pão ázimo e ervas amargas (como o raiz- forte por exemplo). À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogênitos egípcios, desde os primogênitos dos animais até mesmo os primogênitos da casa do Faraó Então o Faraó, temendo a ira divina, aceitou liberar o povo de Israel para adoração no deserto, o que levou ao Êxodo.
Como recordação dessa liberação, e do castigo de Deus sobre o Faraó, foi instituído para todas as gerações o sacrifício de Pessach.
É importante notar que a palavra Pessach significa "passagem", porém a passagem do anjo de morte, e não a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho ou outra passagem qualquer, apesar do nome evocar vários simbolismos.
Um segundo Pessach era celebrado em 14 de Iyar, para pessoas que na ocasião do primeiro Pessach estivessem impossibilitadas de ir ao Tabernáculo, fosse por motivos de impureza ou por viagem.